O título escolhido resume em grande medida o contexto político nacional. Este é o resultado do investimento incansável por parte dos partidos em angariar o maior número de militantes partidários e votos no contexto interno e nacional. O voto, em Portugal, funciona como conformidade de quem não acredita no planeamento politico de cada partido, mas que vota como forma de satisfação de determinados interesses, tendo a sua atitude uma mais valia futura. Por outro lado, a obra “Os Predadores”, de Vítor Matos, é um excelente exemplo que mostra, de forma áspera, como a política vive manchada pela inexistência de uma verdadeira democracia interna nos partidos do poder. Embora a política seja conotada pela indiferença individual, é um sistema nubloso, caracterizado por invejas internas e desejo de derrube de personalidades como forma de ascensão na hierarquia do partido.

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Os acontecimentos retratados ao longo da obra mostram em grande medida como a política actual dificulta a ascensão de cidadãos livres, retratando a vertente partidária que ocupa igualmente cargos directivos em grandes empresas nacionais como aqueles que determinam o rumo colectivo do país e que inflacionam o contexto público, no seu nível económico, social e financeiro.

O ensino deve ser a resistência social. Porém, com um nível de instrução melhorado, a sociedade vive cega do que lhe rodeia ao nível político. Vivemos num contexto precário. É a realidade diária, que coloca cada um numa calha paralela ao tópico da politica, implicando um completo desacreditar dos enquadramentos dogmáticos das vertentes partidárias e dos seus projectos públicos futuros, enunciados pelo seu descumprimento sucessivo.

O Rotativismo Partidário é também uma realidade. Em Portugal, o jogo político executa-se como um campo de ping-pong, onde a sociedade transita consecutivamente entre dois grandes da vida partidária: Partido Socialista e Partido Social Democrata. Estes tentam diferenciar-se, mas acabam por serem gémeos na lógica do aparelho, resultado das estratégias para a obtenção de votos e cargos nas autarquias e, consequentemente, na Assembleia da República. Assim, o rotativismo e a “espera” de governação nacional fazem destes dois partidos de cartel, onde o rotativismo tem reflexo na alternância das administrações públicas e na direcção de institutos.

A essência deste sistema de Partidocracia baseia-se no Caciquismo e em Galopins que tentam manipular a vida política. Deste modo, os principais cargos administrativos acabam por ser sugados por aqueles que melhor usam as lacunas na legislação da sua actividade, escapando ao controlo colectivo. São estes que dão lufadas de ar fresco ao organismo actual e o mantêm vivo. São estes os que são suportados pelos contribuintes e que através do jogo de interesses determinam o rumo nacional (sendo um dos exemplos a questão dos impostos).

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Este sistema provem da vertente interna de cada partido. É aqui onde o panorama corruptivo inicia o seu processo, seja pela corrupção eleitoral, a cunha de ascensão interna no partido, o favor, bem como a forma como tudo influencia a politica dos dirigentes locais. Interessante será denotar a forma como é descrita a relação entre dirigentes locais das autarquias e o próprio governo ao longo da obra – a forma como o cacique, angariador de votos, vende o seu serviço por “favores” do governo. Deste modo, a instituição política carece em confiança da população e o descrédito em toda a actividade.

De certo, a nódoa que caracteriza o panorama politico começa ao nível interno dos partidos. Da autocracia e manipulação eleitoral. É neste seio que começam as injustiças, os favores pessoais, a obtenção de títulos. Por outro lado é aqui que começam as denúncias de irregularidades, de forma a receber promoções futuras na hierarquia do partido. A lealdade a uma nação e a um enquadramento ideológico partidário reside no ego individual. No desejo de satisfação pessoal. Assim, a política executa-se por parâmetros de influência (caciques), onde determinado elemento partidário usa a sua força económica e o prestigio pessoal como forma de controlar o sufrágio “restrito”.

A saúde do sistema baseia-se na moeda de troca, que é o Estado. Na contemplação de cargos administrativos. O que o cacique moderno oferece não é o seu, mas sim o que constrói a figuração Estatal. Assim, a legitimidade política de cada individuo reside na confluência do voto do cidadão eleitor e naquela que é conquistada dentro da estrutura viciada de cada partido. Deste modo, o grande objectivo desta obra passa por perceber a forma como nasce torta a estrutura legitimadora da actividade de cada político, tendo alguns deles já passado pela representação dos mais altos cargos da política nacional.

Contemplo a divisão cuidada do autor, que procura através da divisão triádica da pirâmide política, destacar as mal feituras de algumas das principais figuras do quadro político. Na base da pirâmide, procura debruçar-se sobre personagens que tentaram mandar no seu limitado território. Casos como Carlos Reis, o verdadeiro aparelhista, que desde muito cedo conseguiu construir uma massa de militantes partidários do PSD. Escândalos de pagamentos de quotas como forma de obtenção de votos (ou “sacos de voto”).

A obra procura retratar como a militância política se baseia apenas no amor à camisola, mais que a própria racionalidade argumentativa. Ao se entrar no enquadramento dogmático de determinado partido, acaba por ser o partido a entrar na pessoa e a absolve-lo. É uma politica de sucessão dinástica – isso explica as fortes perseguições de determinados políticos para o pagamento de quotas do partido bem como controlo apertado de militantes para a participação nas eleições internas, mesmo que estes se encontrem desligados da vida do próprio partido. Na base da vida política encontra-se o controlo da secretaria. A limpeza de informações. A inclusão de militantes que não existem. A inscrição de uma série de militantes numa mesma morada. O bloco de voto completamente desviado pelo interesse colectivo do partido e desejo de ascensão de personalidades como Passos Coelho nas eleições internas do PSD.

A aniquilação e medo constante quando as secções partidárias se sentem ameaçadas, quando surge alguém novo e qualificado, com ideias próprias e vontades de participação, mas que acaba por ser descolado da vida política pelo ego colectivo e desejo em manter o quadro intocável.

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A situação débil a este nível autárquico ganha importância pois os militantes ganham o nome do patrono e tornam-se “istas”, sendo este elemento o que revela a pirâmide de relações e dependências a que estão associados. Quando um partido domina determinado município, torna-se fácil manter a importância e desejo de aquisição de votos e apoio popular, através da atribuição de prendas ou verbas monetárias para aqueles que procuram seguir determinado partido. Aqueles que surgem nos comícios partidários a abanar as bandeiras são aqueles que muitas vezes desconhecem o plano político, mas que recebem quotas em troca do seu voto. Aqui os presidentes das câmaras municipais assumem especial destaque, pois são os verdadeiros galopins locais, conseguindo encher jantares e festas partidárias.

Existe assim uma constituição de oligarquias partidárias dentro do próprio partido no contexto autárquico local, onde a sua actividade serve para compensar apoiantes e para manter as redes de apoio. As famílias e a hierarquização de núcleos partidários são importantes ferramentas para o domínio politico, uma vez serem aqules que até podem atingir maior importância quando comparado a uma freguesia, concelhia ou distrital. Os núcleos a funcionar como gangues que perseguem e impõem o medo como meio de recepção de votos e controlo orquestrado dos inscritos. A vertente caricata deste processo é o facto de inexistir legislação que enquadre o financiamento de campanhas internas dos partidos políticos.

Casos como Ismael Ferreira e Rodrigo Gonçalves são exemplos do completo desmascarar do plano de pagamento de votos em juntas de freguesia. Porém, existe uma imensa desertificação de militância política.

Na Estrutura Intermédia (empresas municipais e intermunicipais, deputados, interesses locais e regionais) que definem quem deve ascender à assembleia da República, construindo toda a equipa de deputados e candidatos a cargos superiores. Aqui domina a existência de fichas falsas, conseguindo erguer os partidos por meios ilegais embora não controlados. O surgimento de casos em Braga onde mortos surgem como se estivessem vivos. Aqui existe o critério de selecção de deputados com base na mentira e negação do mérito individual. Aqui, o principal critério são as capacidades de caciquismo de determinada personalidade.

Aqueles que não seguem este sistema viciado são os que rapidamente são eliminados da vida política. Casos como Norberto Pires. Negou seguir a padronização política, sendo assim um entrave à satisfação das clientelas partidárias. Por outro lado, Marco António Costa é o cacique perfeito. Tudo o que fez foi perfeito. Tornou-se um ídolo da vida política pelas razões erradas, tendo como mentor Menezes. Este é um dos exemplos que mostra que os dirigentes não são escolhidos: estes escolhem quem os possa escolher.

Na Estrutura Superior, é aqui que se distribuem os cargos da administração pública aos de baixo, quando chegam ao governo, câmaras e institutos. Interessante será saber o processo que levou à ascensão irrecusável de Pedro Passos Coelho e a vitória nas primárias por parte de António Costa.

Por outro lado, um dos exemplos que capta grande atenção é a influência da tecnologia na alimentação deste sistema corrupto. A utilização de hackers na secretaria como forma de obtenção de maior número de votos. O pagamento destes serviços ilegais (ato de pirataria informática) para a procura de descodificação dos códigos de multibanco para o pagamento de quotas a milhares de militantes. A criação de um sistema informático para avaliar a evolução real dos militantes com quotas pagas e a identificação do sentido de voto de cada um. A monitorização política com base de dados leva com que as vitórias partidárias já transponham para meios informáticos. A corrupção atingiu uma nova escala na luta entre Luís Filipe Menezes e Luís Marques Mendes. O controlo informático do backoffice eleitoral começa a ser uma realidade nacional.

Com certeza, elogio o trabalho de Vítor Matos, que, através da presente obra, consegue delinear pontos críticos da política nacional, oferecendo ao leitor um melhor entendimento de alguns dos casos mais caricatos nos dois principais reguladores da política nacional (PS e PSD). Porém, reconheço o esforço do autor, na procura de apenas retratar fenómenos exemplares e não construir uma generalidade partidária. Adorei o trabalho de este autor, onde através da sua linguagem crua, mas sincera, retrata aquilo que transpõe o tolerável a nível legal, ao mesmo tempo que se torna vicio e rotina para o sistema.

De certo, o vício começa ainda no nível académico. As juventudes partidárias são estratégias bastante eficazes de recrutamento de elementos para o seio do partido. Aqui começam as injustiças, a manipulação eleitoral. Estudantes que aderem a esta causa acabam por viver da política, o que exige uma grande dedicação, prejudicando as carreiras profissionais e académicas destes elementos – isso explica o facto de certas individualidades condicionarem a sua licenciatura e dar uma pausa ao percurso académico quando confluindo com o desejo de ascensão na juventude partidária. Neste patamar, os estudantes tornam-se militantes sem saberem. Aqui associam-se casos de estudantes universitários que votaram em Passos Coelho para líder do partido com identidades de terceiros. O roubo de urnas é a rotina padronizada da actividade destas associações. A mentira e a falsificação política rapidamente moldam as mentes de grandes promessas do seio judicial e político.

A virgindade da corrupção partidária, para cada deputado, rompe-se no caminho proveitoso de cada um. Ninguém alcança o poder sem corromper o sistema, manchando uma profissão tão bonita, que pretende satisfazer os interesses sociais e que rapidamente se conotou ao valor da mentira, acabando por se afastar de pessoas.

Enquanto jornalista independente, Vítor Matos completa o trabalho dos principais órgãos de comunicação social, que apenas oferecem visões parcelares dos próprios assuntos. Embora a obra consiga colocar no leitor um maior descrédito face à confiança no sistema democrático vigente, consciencializa o mesmo sobre as incoerências do sistema e a forma como este se encontra definido: a forma como o poder “dos de cima” da pirâmide (Governo, Lobbys, Primeiro-Ministro) é fortemente conseguido através do controlo partidário, da militância política apagada da ideologia que segue, das juventudes partidárias. Porém, uma crítica que aponto a este grande projecto jornalístico é o facto de não ser analisado o panorama das regiões autónomas, destacando a “Madeira de Alberto João Jardim”, que oferece um regime fortemente influenciado pelo caciquismo. Pela ilusão política. Foi aqui onde entre 1978 e 2015, o boletim de voto apenas teria “um quadradinho”, marcado vitórias sucessivas de alguém de fez o que quis nos seus 37 anos de mandato.

“Todos os partidos acabam por atraiçoar os ideais democráticos transformando-se em organizações oligárquicas controladas por um pequeno número de indivíduos” – António de Araújo, 2003

Como fã da música de Tiago Bettencourt, apresento-vos um pequeno excerto da incoerência politica nacional, que esconde a maldade política como resultado da situação débil do sistema económico português. Por meio da música, procuro, através da ironia e eufemismo crítico, consciencializar a opinião pública de que o rumo que seguimos não é o correcto. É necessária legislação partidária, controlo apertado desta actividade. Acima de tudo, é necessária justiça. A política não é para ingénuos. Vivemos sob uma empresa de interessados, que governam o país pelas razões erradas. Vive-se demasiado da política e não para a política, sendo esta actividade resultado da obtenção de rendimento e não salvaguarda de valores nacionais.

“Vivemos numa prisão, mascarada de liberdade” – Tiago Bettencourt

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