A Globalização e a livre circulação de comunidades criaram uma nova estruturação colectiva da sociedade. Mas também pela revolução do âmbito digital, através de desenvolvimento cada vez mais recorrente na área da tecnologia, que reformou as interacções pessoais e o contacto entre diferentes comunidades. Deste modo, é necessário analisar as ligações entre pessoas à escala mundial. O contacto entre culturas é permanente e nada é local ou isolado. Este é o ponto de partida da acção de um profissional de Relações Públicas, na medida em que a tecnologia exige ser enquadrada como uma mais valia colectiva, garantindo contacto com uma multiplicidade de partes interessadas.

Porém é importante ter em conta a nova geração que convive entre a nossa sociedade. Estes, com a aversão de novos equipamentos tecnológicos, vivem completamente inundados na rotina da web e do conformismo dos conteúdos que la são colocados e discutidos entre diferentes indivíduos – cada um deles mais dependente de um ecrã que parece preencher um vazio na sua consciência. Por conseguinte, o acesso a qualquer pessoa, qualquer lugar, qualquer espaço temporal, embora incentive o conhecimento individual, acabou por obter resultados opostos: tornou a sociedade cada vez mais isolada do contexto social. De certo, tornou-se uma geração de meros polegares, resguardados no seu espaço a analisar aquilo que se passa pelo mundo fora, sem ter o interesse em investigar para além daquilo que lhe surge no ecrã do seu telemóvel, computador ou televisão.

Para Michel Serres, a “Pequena Polegar” representa a geração que vive demasiado do facilitismo, pelo facto de esta não ter passado pelo sofrimento e as dificuldades de gerações anteriores, mas também convive do âmbito da estabilidade colectiva da própria sociedade. Aqui, aquilo que inspire mudança é entendido com algum cepticismo. De facto, a própria adopção de uma aldeia global fez das novas gerações incultas daquilo que é tradição. Daquilo que é visto como herança nacional. Idolatrou-se aquilo que vem la de fora e parece que colocam aquilo que é seu em segundo lugar. Existe falta de amor próprio. Aquilo que é história é negado por gerações actuais. Coexiste um completo descrédito por aquilo que já se passou e aquilo que é herança cultural.

Tendo em conta o contexto social, parte da apatia colectiva reside na forma como os media formatam esta nova parcela da sociedade – de certo, os ideais que seguem um individuo não provêm de experiências ou de códigos passados entre gerações, mas daquilo que é discutido em contexto mediático e obtém cobertura dos órgãos de comunicação social. Mas igualmente padronizados pelas mensagens que provêm da publicidade, que mancham a capacidade criativa e intelectual de cada individuo, predeterminando atitudes sociais e visões fundamentalistas sobre temas altamente discutíveis.

Para esta causa teve o nosso contributo. A sociedade do espectáculo transformou-se numa sociedade pedagógica cujos membros, cada vez mais ignorantes e competitivos entre si, ofuscaram a escola e a universidade. De facto, a função educativa passou para as mãos dos órgãos mediáticos. O mérito académico é cada vez mais desprezado e é assente nos media uma capacidade de legitimidade máxima, procurando impor opiniões de forma bruta e incorrecta. As crianças isolam-se nos espaços dos social media e lá passam grande parte do seu dia a dia.

Porém, partilho a visão do autor no que diz respeito à facilidade comunicativa desta geração. Com processos de livre circulação, as culturas começam por ser divulgadas entre continentes. Com a web, esse fenómeno faz com que esta geração actual inicie conversações via chat com uma multiplicidade de indivíduos, independentemente do background cultural ou do seu código mental. Em contraste, denota-se igualmente uma perda de ideologias – pelo contacto cada vez mais constante entre culturas, está a faltar o conteúdo para a construção de uma cultura nacional. Assim, necessitamos de enquadrar esta geração pela substituição do egoísmo pela entreajuda entre comunidades.

O panorama colectivo da nova geração implica uma revolução no âmbito da pedagogia – requer uma mudança que afecte todas as instituições. A própria actualização no sistema de troca de conhecimentos e construção de ordem social. Assim, é necessário uma reforma no panorama institucional que adapte a sociedade ao avanço tecnológico cada vez mais acelerado.

O cérebro das novas gerações processa imagens e textos a uma escala estrondosa. Os conteúdos que passam pelas suas cabeças são automaticamente adquiridos e colocados nos seus códigos mentais. Com este mundo cada vez mais dependente de meios electrónicos e informáticos parece que a cabeça de cada um foi substituída pela máquina que dominamos com as nossas mãos. É  esta a máquina que gere e controla as nossas principais faculdades: os programas são cada vez mais autodidactas, negando a resolução de problemas por meio da acção humana; os computadores conseguem armazenar uma extensa quantidade de informação e a margem de erro na leitura e interpretação de dados é quase nula. Parece que estes avanços tecnológicos colocaram a nossa inteligência em causa e o nosso próprio processo criativo e de inovação.

Aqui é o ponto de partida para a reformulação das instituições proposta por Michel Serres – o Ensino. Este necessita de se adequar à forma como é apresentado o conhecimento no âmbito académico: O conhecimento que foi desviado para livros e obras pontuais durante a época de Gutenberg facilitou a nossa capacidade de retenção de memórias e de conhecimento. Porém, com esta nova era digital, não precisamos sequer de saber a localização destes mesmos livros. A facilidade em obter informações com o menor número de esforço é quase total: somos cada vez mais submissos com aquilo que nos surge nos motores de busca do computador como o Google ou o Bing. Para realizar um estudo ou uma tese, não precisamos de sair do lugar para obter toda a plenitude de obras necessárias. O produto vem já colhido, filtrado, editado por autores anteriores e, na maior parte dos casos, já actualizado.

Certamente, o conteúdo que é exposto no contexto académico pelo professor é matéria já inscrita em obras ao acesso de qualquer um. Com efeito, o autor considera que a voz do docente funciona como uma voz de fundo e que não precisa de atenção. O conteúdo que o professor traz para a aula já foi ou é facilmente adquirido pelos alunos, recorrendo a ferramentas como o wikipedia ou qualquer base de dados académica.

“A voz daquilo que é passado já não é útil” – Serres, M. 2012

O conhecimento encontra-se, desta forma, em formato de depósito, acessível em qualquer altura e em qualquer lugar.

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Novas Exigências do Ponto de Vista Organizacional

O surgimento desta nova geração implica, do mesmo modo, uma alteração na actividade comunicativa de um Relações Públicas, procurando um contacto assertivo com estes novos públicos. A mensagem enviada requer que cresça no destinatário um factor que determinante e que lhe cause surpresa ou interesse. Todavia, considero que algumas organizações continuam a ter uma visão errónea da realidade, adoptando a divulgação de conhecimento de uma forma unidireccional – esta continua a ser a sua estratégia que visa a manutenção de padrões sociais, embora esta tarefa seja inteiramente impossível. É necessário atender às características de cada individuo e enquadrar mensagens que possam ajustar interesses de parcelas da sociedade distintas.

Em adição, a facilidade de acesso a conteúdos enunciada anteriormente também assumes especial relevância do ponto de vista organizacional. Implica, de algum modo, uma monitorização detalhada do tipo de mensagens e informações ao acesso em plataformas online. Assim, temas como a transparência são realidades cada vez mais discutidas perante a exigência e pressão do espaço digital. Uma organização terá de pensar nesta plataforma como um espaço inteiramente livre, onde a omissão de certa natureza e âmbito interno é facilmente descoberto com um mero click. 

Isto não implica que uma organização seja totalmente transparente, uma vez que o direito de reserva de certas informações é importante para o futuro avanço do negócio e reduz o nível de vulnerabilidade. No entanto, é importante enquadrar o espaço digital e esta nova geração de um ponto de vista proactivo – por vezes é o ponto de partida para a manutenção de relações com toda a envolvente externa e a salvaguarda da própria reputação da entidade.

Nasce nos indivíduos, como indicado pelo autor, a Presunção de Competência, onde todos acreditam que têm profundo conhecimento sobre determinada temática. São as histórias (storytelling) que são transmitidas para estes públicos que os tornam irrequietos e os fazem comunicar entre si. Por outras palavras, Michel Serres afirma que a ordem do conhecimento pode levar a uma estagnação, fazendo com que as pessoas se centrem apenas em temas os quais querem ver descobertos e discutidos. Com um pouco de caos, de desordem, as pessoas terão, por natureza, o interesse em investigar mais até chegarem onde querem e, dessa forma, conseguirão incrementar o seu conhecimento sobre o mundo. Aqui é o patamar máximo para o sucesso de uma mensagem. O importante a denotar é que estes indivíduos não são guiados para um rumo (como o rumo académico proposto por um docente em contexto de aula, indicado pelo autor). Ou seja, não assumem uma posição passiva, mas sim activa. Temáticas como manipulação ou persuasão são teoricamente impossíveis de aplicar a esta parcela de indivíduos. O que os torna activos é o domínio de aparelhos electrónicos que os tornam conhecedores de qualquer realidade ou acontecimento. São seres moveis, muitos deles lideres de opinião. Na relação entre empresa e envolvente externa, deixaram de existir decision-makers. Enquanto Relações Públicas, importa estar um passo à frente deste público, caso contrário é a morte ou o insucesso profissional.

Adicionalmente, a união entre o contexto organizacional e a sua envolvente faz-se também via web, onde o feedback é crucial para a redefinição de métricas sobre tendências. O conceito de ordem não pode ser introduzido nesta relação bidireccional, uma vez que implica prisão e estagnação.

Alem disso, a geração da pequena polegar introduz novos desafios na actividade de Relações Públicas no que toca à forma de enquadrar certos conceitos. Meros conceitos concretos, que induzem interpretações ambíguas e, por vezes, contraditórias. O permanente acesso a conteúdos e informações revela e apoia a construção de termos cada vez mais indefinidos. Sendo cada vez mais difícil estabelecer fronteiras no conhecimento e na própria definição de ideias gerais, cabe ao Relações Públicas salvaguardar o correcto entendimento das suas mensagens. Cabe a este monitorizar os quadros de percepção do seu público alvo, enquadrando as múltiplas visões numa só, erguendo o próprio rumo à eficácia comunicativa. Passa por contornar ideias preconcebidas. Estereótipos ou exemplos concretos.

É também importante divulgar que a obsessão de atribuição de avaliações transitou para a sociedade em geral, implicando uma associação directa com temáticas como a reputação. Num mundo cada vez mais digital, com informações ao acesso de todos, as organizações vivem dos números que lhes são associados. Assim, a reputação é erguida por atribuições de prémios e reconhecimentos via ranking nacional ou internacional. Enquanto Relações Públicas, métricas como KPI’s ou definição de objectivos tornam-se ferramentas essenciais para a correta redefinição de estratégias de futuro como forma de obtenção vantagem competitiva ou até mesmo a liderança de mercado. No contexto actual, coexiste uma necessidade incansável em criar opiniões ou julgamentos face a uma entidade ou organização. É aqui que entra a monitorização da imagem que é criada na envolvente externa de uma organização. Porém, requer um enquadramento entre aquele que avalia e aquele que é avaliado, corrigindo possíveis erros ou incoerências. O contexto económico e tecnológico deu uma voz ao público, tornando a comunicação simétrica. A voz que não é singular, mas que é trocada e partilhada entre diferentes facetas da sociedade. Esta encontra-se sob a forma de diferentes plataformas.

Acima de tudo, requer a construção de colectividade entre a organização e este novo espaço. Na visão de Michel Serres, não podemos ter medo das consequências desta nova revolução que transita para o mundo da web. Estes esforços não podem ser reconhecidos de forma hostil, possibilitando, no futuro, a construção de novas ordens sociais. De certo, as grandes máquinas públicas necessitam de abandonar a concepção de poder e de suposição que são detentores da palavra. Esta geração da pequena polegar é capaz de construir um exercito capaz de derrubar qualquer uma destas máquinas. Enquanto Relações Públicas existe a necessidade de reconhecer estas vozes e enquadra-las na estratégia da organização. É Inconcebível ignorar opiniões e aquilo que é escrito sobre a nossa organização no âmbito online – pode ser reconhecido como ameaça ou oportunidade de comunicação, sendo impossível subestimar o contributo deste novo público, embora composto por seres anónimos. Ainda que o espaço publico tenha perdido cada vez mais plausibilidade, é preciso reconhecer que estes indivíduos têm tudo às suas mãos.

O contexto tecnológico coloca a pequena polegar num âmbito cada vez mais vulnerável. A apropriação de dados encontra-se cada vez mais ao acesso de marcas, empresas e organizações, sendo necessário garantir e salvaguardar a reserva de identidade. Implica novas métricas no âmbito ético da atividade de um Relações Públicas e da organização que este representa – O autor indica o surgimento do Poder da Informação que passa a integrar o poder para além do legislativo.

Não nos podemos ficar apenas pela crítica a esta nova geração. Como Michel Serres denota, é necessária a invenção de ligações. A geração da Thumbelina necessita da criação de ligações sociais. Precisamos de transitar de uma actividade de cepticismo e suspeita face a esta geração para uma fase de construção colectiva. Para uma sociedade correta e com um rumo delineado para o futuro. O panorama relacional modificou-se. Enquanto Organização, a posição de gatekeeper anulou-se. O poder de decisão diversificou-se.

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