Num mundo cada vez mais liberal e unido, o nacionalismo cai por terra. O espaço público caracteriza-se pelo contacto entre pessoas. Pela partilha de experiências e troca de valores culturais distintos. A noção de individuo abre agora espaço à construção de algo bem melhor – a construção de uma comunidade cada vez mais global. Inicia-se a construção de uma nova estrutura social. Porém, é necessário repensar a ideia de Europa e as raízes desta área territorial, com uma cultura própria. Trata-se do berço do conhecimento mundial, sendo assim necessário salvaguardar esta cultura intelectualista, de forma a que não seja substituída pela submissão que tanto caracteriza a cultura e os valores partilhados entre a sociedade dos dias de hoje.

George Steiner, mediante a sua obra “A ideia de Europa”, considera que é possível reabilitar o estado da Europa. Mas este caminho não se ergue sozinho. Requer o interesse e o engenho dos jovens que residem neste continente que viu nascer grandes personalidades do vasto mundo científico e área da pedagogia. Embora se tratando de um espaço pequeno, a Europa é o berço da criatividade, da imaginação e da inteligência. Porém, parece que as pessoas se colocam em segundo lugar. Que idolatram aquilo que vem de fora. A apatia, característica psicológica que caracteriza a sociedade europeia, parece ser a consequência da capacidade de pessimismo melancólico que guia a conduta deste conjunto de elementos. Porém é importante residir um elemento de autocrítica na cabeça de cada individuo, pois é a partir desse estado que se consegue regenerar atitudes de desenvolvimento intelectual e preservar a cultura de engenho que caracteriza os Europeus. Assim, enquanto houver este elemento não haverá necessidade de derrotismo sobre o projecto de regeneração europeu. A construção de um caminho de exportação cultural, onde a reviravolta ideológica reside nessa cultura partilhada, na liberdade e na diferença.

A globalização e a união de culturas parecem ser um entrave a esta reforma ideológica. Esta é entendida, de acordo com Steiner, como uma posição de trunfo para o distanciamento da Europa. Apesar de entrarmos em contacto com uma multiplicidade de indivíduos, a diversidade cultural é algo positivo e inevitável, mas também abre contextos de discussão e facilita a integração de sistemas políticos, económicos e culturais.

Steiner considera que a globalização incute na sociedade uma posição de cepticismo e conformismo nos indivíduos perante a procura de regeneração da própria ideia de Europa. Existe uma posição desanimadora para uma possível solução do panorama europeu. Não pode coexistir entre a sociedade um posicionamento de desencanto que leva à interrogação do papel da cultura para este mesmo projeto ambicioso. Deste modo, a conjuntura de Integralismo Europeu é encarada com algum desencanto.

Para o autor, a ideia de Europa detém algum teor de imortalidade. A cultura europeia tem na sua génese a síntese de duas culturas, Atenas e Jerusalém, que determinaram os contornos de um povo tão poderoso. Por essa razão, a ideia de Europa é um conto de duas cidades. Porém, o extermínio judaico por parte do regime nazi parece ser a principal razão para a não permanência de uma cultura na Europa. A anulação de uma nação europeia. Perdeu-se uma ideia de Europa ou a própria construção dela. O que resta na sociedade de agora é um conjunto de atitudes sem alma, uma entidade sem fundamento cultural. Somos apenas seres guiados pelos nossos interesses económicos. Meras máquinas que busca um único propósito: a aquisição de capital.

satirical-illustrations-denounce-the-sad-realities-of-our-world-112

O nazismo criou uma ferida de espírito Europeu. Criou, na geração descendente de Atenas e Jerusalém, um espírito fatigado. Uma mentalidade dividida e puramente confundida. Pessoas guiadas pelas razões erradas. Mas cabe-nos a nós preservar a herança que se encontra fragilizada. Criar contextos de discussão, incentivando uma cultura de espírito. Passa, com Steiner afirma, pelo investimento nas artes, nas humanidades, encarados como o ponto de partida para a o enobrecimento desse mesmo espírito. Pretende-se criar um propósito na vida da geração actual, mas que tenha igualmente repercussões na preservação de espírito para o futuro e a dignificação da essência de um povo. É a herança cultural que necessita de ser usada para o cultivo da alma.

A educação leva-nos à “dignitas da pessoa humana”

Enquanto estudante de apenas 20 anos, considero que integro a geração à qual Steiner se refere. Na visão do autor, nesta geração ser crítico é ser capaz de construir distinção. A apatia e passividade intelectual leva à igualdade e à estagnação. Reviver uma cultura é chocar com diferentes visões. Por aqui é que se constrói o conhecimento. A inexistência reflexiva implica o não reconhecimento de uma elite cultural. Ser culto e sabedoria erguem-se não só por palavras, mas também por actos e pela adopção de uma nova ética. Requer mais que eloquência, procurando combater o fascismo da vulgaridade que tanto caracteriza as mentes actuais.

O conhecimento terá de ter fundamentos, provenientes de raízes culturais. Requer acima de tudo uma posição de cortesia. Steiner condena a distância que estes jovens descendentes de Atenas e Jerusalém têm com a cultura europeia – uma sociedade que não segue ideais e que não tem bases leva à sua autodestruição. Em adição, passa por preservar um ideal de civilização, mencionado por Rob Riemen.

captuefefrar

A identidade europeia revela-se pelos cafés: espaços físicos onde as grandes ideias se constroem; debates intelectuais e conspirações. Um espaço de vanguarda e um clube ao direito de participação de todos. Parte do liberalismo individual, içando revoluções de espírito e de doutrina. A permanência destes espaços parecem ser o fundamento e conteúdo necessário de mudança. De acordo com Steiner, o café é lugar de alimento da ideia de persistência de “eternidade” na Europa

Por outro lado, a Europa possui características particulares: a reflexão parte da experiência. A Europa é percorrida a pé. Assim, é na aventura, descoberta e troca de experiências que o humano, neste caso os jovens cansados, divididos e confundidos de Atenas e Jerusalém, encontram a dignidade da sua própria vida. A geração actual, inundada nos novos meios tecnológicos, caracteriza-se pela sua subordinação à informação que recolhe diariamente. Isolada de contextos noticiosos, acontecimentos relevantes, mostrando apenas interesse por conteúdos que surgem no seu ecrã, não cria fundamento para as suas decisões. Não constrói alicerces para as suas reflexões. Não se procura educar, saber um pouco mais sobre temáticas que sejam do seu interesse, invalidando a construção do seu dignitas. Requer, assim, um estímulo de aventura e descoberta individual, pois os componentes integrais do pensamento e da sensibilidade europeus são pedestres.

Com certeza, a reflexão também parte da deambulação pela cidade, com alterações correntes de itinerário. Deambulações que também foram elaboradas por vanguardistas do passado e que edificaram o seu intelecto. Para dignificar o propósito individual, passa por nos interrogarmos sobre de que forma é que o nosso engenho pode acrescentar valor à mentalidade do passado europeu. Sem dúvida, é nesses jovens que Steiner indica a necessidade da perseverança do legado do questionamento, sendo essa a base para a vanguarda. Passa por seguir a hereditariedade de Atenas e Jerusalém. Por essa razão, aqueles que negam este passado levará à amnésia criativa, a um poder de esquecimento que subjaz a demanda pragmática da utopia.

“A Europa jazia em ruínas. A sua eminência intelectual, da qual o ensino tinha constituído garantia emblemática, revela-se pouco emblemática face à demência política”

A disseminação mundial da língua inglesa e a universalidade da Internet invocou novas reformas de construção social, mas de certa forma criou barreiras á própria ideia de Europa. Assim, é pela diversidade linguística, cultural e social que se inspira o diálogo e a construção de dignidade individual e edifica a própria ordem e progresso da Europa. Reside nos filhos frequentemente cansados de Atenas e Jerusalém o conserto da cultura europeia. Que esta seja a fonte do conhecimento e dê repercussões na intelectualidade e engenho mundial. Enquanto Europeus, somos criadores de saber e é necessário criar amor próprio pela hereditariedade de gerações anteriores. Exige a estes jovens um investimento no panorama europeu, negando a americanização do mundo e do próprio American Dream.  

Para a geração actual, o modo de ser europeu exige o abandono da visão de pânico e fim do mundo. A reforma de ordem social implicará que a Europa não se derrube sob o peso paradoxal dos seus feitos e da riqueza e complexidade sem par da sua História. O optimismo futuro advém da capacidade de estes homens e mulheres criarem um fundamento para a sua vida, fundamentada pela história comum do povo europeu. Pela busca da sua identidade e da identidade caracterizadora do povo europeu. Implica um espaço de sintonia. Uma unidade na diversidade.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s