A cultura é o berço de um país. Um espaço onde reside a essência dos valores que guiam determinada sociedade e que define a conduta colectiva e um padrão comportamental comum. Mas cultura implica um trabalho incansável por parte da sociedade, procurando manter os principais pilares construtores de um país e de um valor comum. Assim, importa salientar o conceito de Nobreza de Espírito, como algo que necessita ser integrado nas mentes de todos os indivíduos, delineando os primeiros passos para a não dissipação de uma cultura. Um país não é apenas um território, definido por leis. Este é cimentado pela cultura.

Riemen é um dos autores que acredita na manutenção de uma cultura baseada na Nobreza de Espírito, que assume o cargo decisivo no desenvolvimento da sociedade contemporânea. Nobreza de espírito enquanto conceito que choca e derruba a padronização de conhecimento e mentalidade de que somos alvo e certos parâmetros que dificultam o seu desenvolvimento no espírito das pessoas: a nivelação igualitária da educação, a democratização das políticas actuais; o lugar dominante dos meios de comunicação social na mobilização das massas e a criação de ideias uniformizadas entre a sociedade.

Assim, considera-se Nobreza de Espírito como imposição de uma liberdade contínua na mente individual: a mente como elemento que torna o humano ciente daquilo que é verdade e aquilo que o possibilita viver em conformidade. Possibilita ao individuo viver dedicado ao pensamento e á busca da sabedoria. Deste modo, a verdade e a liberdade são conceitos puramente interligados, dependentes entre si. Mas esta dedicação que, segundo Riemen, terá de ter o seu começo na educação: a verdadeira educação como aquela que tem na sua base a nobreza de espírito e a abertura de pensamento. Que incentive a liberdade e busca do conteúdo verídico. Mas uma responsabilidade que transita para o campo da politica e do Estado: este necessita de incutir liberdade de opinião e tolerância. Que afaste o povo da escravidão de superstições, medos e desejos que caracterizam a sua conduta. Que os conduza pelo caminho da razão e que entendam o propósito e essência da sua liberdade.

Requer um afastamento do interesse económico e da busca de liberdade através da riqueza. Do projecto político e económico que planeia conduzir o povo ao seu próprio Graal: o eterno poder na terra. De um ideal de civilização ocidental partilhado por valores disruptivos para o progresso da sociedade.

O cultivo da Nobreza de Espírito necessita independência de forças maiores que guiem a conduta de um individuo. Assim, o poder e o dinheiro são entraves à liberdade. Apenas através do intelecto humano é que é possível democratizar, liberalizar uma sociedade. De certo, caberia à parcela intelectual a manutenção de valores culturais, estimulando o conhecimento e a busca de felicidade. Em consequência, a verdadeira felicidade só pode existir na sabedoria e conhecimento a respeito da verdade.

Contudo, a base da cultura, que inicialmente suportada pela Nobreza de Espírito, encontra-se manchada pelo poder do capitalismo e desejos individuais de aquisição de dinheiro. Riemen aponta para o afastamento da concepção de sociedade americana. Uma sociedade que vendeu a alma ao dinheiro. De uma nobreza de espírito entregue a meros interesses económicos. Uma mera política de lucro, suportada por pilares em torno da globalização, comercio e capitalismo. O interesse económico como elemento que secularizou qualquer valor cultural.297e547b0d4728569ebef341cd83cfc2

Assim, a nobreza de espírito equaciona-se como o elemento que derruba a desorientação grupal que caracteriza as sociedades dos dias de hoje, que segue os passos de terceiros e vive sob a submissão da televisão e do comércio. Porém, enfrenta um povo apático, caracterizado pelo seu completo desinteresse em relação ao seu destino individual. Pela perda de auto-estima, resultado de acontecimentos de guerra, incutindo um valor de indiferença geral ao sofrimento e à deterioração de cada homem. Um homem colectivo, embora independente, mas que não aproveita essa mais valia e segue os passos de alguém. Este é convidado a seguir os seus próprios passos, mas continua sempre a seguir os passos de terceiros. De criação de dependência e submissão a ideais de outros, que vem anular a criação de dignidade e liberdade de espírito. Uma posição de obediência, que não perde tempo a ajustar a vida e a realidade a essas mudanças e, portanto, a fazer justiça ao espírito. Uma completa cegueira moral.

Contudo, o homem não pode ser abandonado nesta posição de apatia perante o mundo. Num universo sem sentido e perseguido pela falta de tempo. Este não pode seguir os passos de meios de comunicação de massas e economia, que procuram proclamar as virtudes do que é progressista e oferecer a “liberdade”. Assim, cultivar uma nobreza de espírito é desenquadrar desta visão limitadora da vida e pensamento humano. O culto da ausência de valores coloca-se numa posição de negação de significados, de tradições e experiências partilhadas – a nobreza de espírito como resposta à ausência de luz e optimismo na sociedade contemporânea. A solução para a construção de conhecimento onde as experiências humanas criam carácter, espírito e dignidade humana.

Do ponto de vista quase utópico, considero a nobreza de espírito como ideal de vida esquecido. Um ideal esquecido e dispensável. De anulação da riqueza que, por tantos anos, corrói a dignidade humana e ameaça a sua mente intelectual. Um ideal que permite a construção da verdadeira liberdade, suportada e apoiada pela democracia – onde o objectivo desta é que a mais profunda liberdade se torne lei. Que introduz no homem o culto da sua própria alma. A própria encarnação da sua dignidade: a demanda da verdade, do bem e da liberdade. Um espaço de criação de justiça social e regido pela liberalização de condutas individuais. Contudo, o sucesso da democracia implica uma dependência tremenda da Nobreza de Espírito: segundo Riemen, sem nobreza de espírito, a democracia fracassará devido à sua liberdade – esta requer uma tendência aristocrática, uma nobreza não de sangue, mas de espírito.

“Numa democracia que não respeita a vida intelectual nem é guiada por ela, a demagogia tem rédea livre, e o nível da vida nacional é rebaixado ao do ignorante e do inculto. Mas tal não acontece se o principio da educação puder dominar e se prevalecerem as tendências para elevar as classes mais baixas a uma apreciação da cultura e à aceitação da liderança dos melhores elementos”- Mann, T. em Riemen (2011)

O cultivo no niilismo que rouba a existência humana a possibilidade de elevar o ser acima da sua natureza animal. Com este roubo começa a distorção da liberdade O niilismo da sociedade de massas que destrói a civilização e o tecido do colectivo da ordem social. Constrói uma ideia de igualdade onde todos têm razão e acabam por se destruir uns aos outros justificado pela liberdade e falta de critério de acção.

“Liberdade – difícil e trágica liberdade – já não é mais o espaço de que o indivíduo necessita para praticar a aquisição da dignidade humana; é antes a perda dessa dignidade a favor da idolatria do ideal animal: tudo é permitido” – Riemen (2011) 

Riemen considera que o cultivo da Nobreza de Espírito é o resultado da dualidade natural que foi destinada aos homens: uma natureza ou existência física, mas contendo a espiritualidade que o destaca dos restantes animais. Que lhe concede o acesso ao mundo das ideias. Um espaço de reconhecimento de ideias clássicas como elementos de restauração dos valores importantes da civilização ocidental – valores cuja manutenção alcançaria a dignidade humana.

Pegando nesse ponto de partida, é pela comunicação que a ética pessoal se produz, politizando o próprio espírito. Assim, é através desta que o ser humano encontra a solução para as suas interrogações, às quais não há respostas imediatas. Por outro lado, é através da comunicação que se honra o espírito e código mental, pela busca de informação e existência de duvida, seja em torno de instituições, temas ou até mesmo, como mencionado por Riemen, sobre a nossa existência e possível contexto de liberdade e Igualdade. Deste modo, a comunicação serve o culto de nobreza de espírito. De criação de individualidade e cultura de interrogação. De elevação de eternidade e anulação de agonia perante a cultura europeia.

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Assim, a componente moral da vida é atribuída pela omnipresença da razão salvaguardada pela Nobreza de Espírito. Pela consciencialização de entre os indivíduos que estes não podem ser mergulhados numa euforia colectiva, libertos de responsabilidade individual. Certamente, a consciência humana é a base da nobreza de espírito. Pela comunicação e ideia de espiritualidade, a Nobreza de Espírito capacita-nos de distinguir ideias, que, por sua vez, estruturam a nossa vida e a própria cultura. De construção de liberdade e descoberta da verdade. De um patamar que possibilita o abandono da padronização do pensamento. Do silenciamento do espírito. Deste modo, a Nobreza de espírito introduz a necessidade de sabedoria e de elementos que suscitem dúvidas e que exijam receptividade. Que anulem uma visão padrão em torno do que são métricas de boa moral, boa arte ou boa conduta. De formas alternativas e não irrevogáveis de se viver. Uma cultura que ultime a abstracção de conceitos.

O conceito de dúvida suscita a discussão de ideias, composta pela comunicação e choque de visões distanciadas. De libertação da alma do medo e do ódio. A conversa como um espaço de troca de significados. De conhecimento individual. Assim, enquanto existir o poder em torno da conversa, há esperança para a civilidade e para a busca de verdade. Pelo suporte em valores clássicos da humanidade, que protegem a sociedade de fundamentalismos. Pela democracia, esta funcionará de forma eficaz pelo cunho da linguagem – esta existe para nomear a realidade; conhecer o verdadeiro. De certo, quando a linguagem é atacada, a mentira erradicará e a liberdade sente-se ameaçada. Um local que oferece consolação e não o desenvolvimento do poder.

Em suma, a Nobreza de Espírito é a colocação das questões certas. Esta proporciona maior discernimento da existência humana do que repetir sem critério respostas que os outros nos dão. Deste modo, é pela palavra e pela comunicação que a dignidade humana ganha vida. Quando palavras perdem sentido, a nossa vida também se torna algo sem sentido. Neste processo, a sabedoria não é mais que o somatório da vida com o pensamento, suportada pela busca corrente pela verdade. Exige a cada um de nós a negação da apatia e desinteresse por aquilo que nos rodeia. Pelos valores que nos são eternos e constroem a nossa sociedade. Da eternidade do significado daquilo que nos é mais próximo. Requer o nascimento da intelectualidade e refutação do sistema económico e politico vigente. Da introdução de dúvidas. De diálogo e debate como única via de salvaguarda de respostas às nossas preocupações. De interrogações, procurando salvaguardar a tão proclamada “liberdade”, imposta pela cegueira em torno da segurança e da prosperidade, onde o homem necessita de praticar a aquisição da dignidade humana e onde fomenta a harmonia colectiva.

Implica interrogar a democracia como regime de salvaguarda de um espaço de nobreza de espírito. Embora condicionados pelas visões gerais da sociedade, reside em cada um a responsabilidade de melhorar o contexto europeu. “As massas não estão interessadas, porque as suas cabeças não querem questões e as suas barrigas querem ser alimentadas. A politica, espaço que devia incentivar uma cultura de espírito, também não estão interessados, porque o seu poder depende da estupidez das massas. A economia igualmente desinteressada porque, para alem de serem os verdadeiros poderosos, porque a cultura custa dinheiro. O comércio e o dinheiro como elementos que reinarão sempre.”, mostrando o pessimismo indicado por Riemen. Assim, o ponto de partida para a construção de Nobreza de Espírito habita no derrube do poder do capitalismo, que impõe o dinheiro e o poder material como os valores colectivos e a serem seguidos para a conquista de felicidade – o panorama social actual caracteriza-se pela perda de intemporalidade dos valores.

Que introduza no individuo a noção do tempo, que o faça regressar às fontes do seu ser. Que o retire da subjugação ao medo e salvaguarda do seu mero bem-estar social e financeiro. Que revire o contexto intelectual que condiciona o desenvolvimento da nobreza de espírito, resultado da corrupção e do excesso de egoísmo que trai a civilização e eu os subordina a distinções entre o bem e o mal em função das duas convicções politicas e do retorno imediato, cada vez mais idolatrado, culminando no desaparecimento daquilo que é a base da hereditariedade cultural que caracteriza e, por norma, deve caracterizar a conduta e a existência real de uma sociedade.

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