Um mundo sem rumo, baseado no descontrolo económico, climático, financeiro, intelectual e ético. Este vive inundado na padronização ideológica da sociedade contemporânea; que não interpela a liberdade individual de cada um e recorre a uma completa anulação da liberdade colectiva. Marcado pela ascensão cada vez mais impiedosa de fanatismos, de exclusão económica e social, de dominância permanente e de uma sociedade deslocada do respeito e da interacção em pé de igualdade; de uma destruição assombrosa dos alicerces constitutivos de uma sociedade, cultura e país. Uma cultura e um contexto puramente tecnológico, mas que parece desvanecer em função do egocentrismo e da completa apatia perante o bem comum. Um panorama caracterizado pela falta de valores que, numa sociedade estável e progressista, oferecem aos seus membros uma ancora identitária duradoura.

Deste modo, é necessário um grito de alarme perante este contexto de destruição de princípios colectivos: uma reforma liderada por Amin Maalouf, pela sua obra Um Mundo Sem Regras, que propõe reestruturar e revirar a moeda perante o completo desregramento intelectual, composto pelo excesso de afirmações identitárias, que dificulta uma coexistência harmoniosa entre pessoas e comunidades; que incentive a retoma de um mundo actualmente sem caminho e sem visibilidade.

Assim, exige uma posição proactiva e de solução de contexto num futuro próximo. Requer a necessidade de mutação de atitudes, uma consciencialização intelectual que é necessária mudança. Sem esta os princípios morais e valores colectivos desvanecem, aspecto já identificado pelo estádio onde a sociedade se insere, implicando uma possível regressão de ideais e estrutura colectiva. De certo, considero importante a apresentação de guidelines de alteração de consciência e contextos onde pode, efectivamente, ocorrer a mudança – implica um completo desprezo no olhar para interesses pessoais. Precisamos de olhar para o mundo como um espaço partilhado e que diz respeito a todos.

A Democracia era vista como a esperança, no passado, para a construção de um mundo baseado na cooperação, onde antigas barreiras entre as diversas regiões do globo davam agora uma abertura para a circulação dos homens, mercadorias, e ideias que se iriam desenvolver sem entraves, inaugurando uma era de progresso e prosperidade.

Porém o avanço é visto como uma faca de dois gumes. Por um lado, cria esperança, mas por outro, como indicado pelo autor, traz a própria desorientação, incerteza e vulnerabilidade. Um avanço pode criar a ausência ou perda de referência, que nos leva a interrogar sobre a nossa identidade, fronteiras, instituições futuras, o nosso lugar no mundo. Questões às quais não há respostas imediatas (equacionar a união como algo que crie o patriotismo continental ou uma parceria flexível entre nações).

Um mundo totalmente politizado, onde a estrutura interna em organizações como a União Europeia contrasta com regiões como África ou América latina. De pólos onde por um lado nos apresentam oportunidades para a criação de rumo, mas por outro indicam facetas da sociedade caracterizadas pela corrupção generalizada, delinquência e falta de eficácia de instituições, da desintegração do tecido social, marcado pelo racismo, xenofobia. Um paradoxo quando comparado com a UE, uma vez que esta apresenta soluções e alicerces importantes (homens e as instâncias necessárias para os debater de forma útil, a fim de elaborar soluções; porque ela é portadora de um projecto unificador e de uma forte preocupação ética).

Contudo, uma América que, claramente, vendeu a alma ao dinheiro e regula um mundo baseado no seu monopólio, interesse puramente económico e de criação de riqueza. Uma nação que dita as regras do jogo nos mercados e na concepção de politica, mas perde naquilo que é a hereditariedade da própria cultura.

Em suma, estamos inseridos num contexto global marcado pelo choque de visões entre ricos e pobres, arrogantes e submissos, ocupantes e ocupados, mas que nada contribui para a retirada do afundamento de um plano colectivo e de progresso vinculativo entre sociedades. Um processo que não olha para o plano, de um sucesso, económico, e de equilíbrio, mas que criou a sua própria crise e declínio. Um triunfo do Capitalismo o precipitou na pior crise da sua história.  Com certeza, a existência de um contexto social baseado no fundamentalismo e no medo consistente, obcecado pelo terror.

“Passámos de um mundo onde as clivagens era principalmente ideológicas e onde o debate era incessante, para um mundo onde as clivagens são principalmente identitárias e onde há pouco lugar para o debate. Cada um proclama as suas prerrogativas diante dos outros, lança anátemas, mobiliza os seus, diaboliza os inimigos” – Maalouf (2009)

O panorama político, económico e social baseia-se na abolição do debate livre de ideais e convicções, seguindo um caminho de puro reforço das prerrogativas hereditárias em detrimento das opiniões adquiridas, rumo ao menor universalismo e racionalidade. Deixou, assim, de existir um confronto ideológico, onde cada um não segue ideais próprios e mesmo que este os tenha, não os coloca em cima da mesa para a abertura de discussão e debate. A inexistência de alternativas ideológicas tornou-nos submissos a ideais abstractos, aos quais não conseguimos responder mediante interrogações. O Capitalismo e modelo económico baseado na riqueza foram, assim, vistos como dados adquiridos. Não há necessidade de refutação, embora a sociedade denote, claramente, falhas tremendas no sistema e na ordem jurídica.

O certo é que existe um silêncio permanente. Um sistema económico que atormenta sobre o direito dos trabalhadores e sobre as suas desigualdades. Assim, a relação com o dinheiro e com a maneira de o ganhar tornou-se obscena. Aspectos a ter em conta pelo autor porque parece que já não vale a pena viver uma vida de trabalho honesta, quando aqueles que corrompem o sistema e que ditam as regras, pelo dinheiro que têm nos bolsos, parece ser a solução para todos os problemas.

Denota-se igualmente o crescimento de radicalismos e populismos sem sentido, vistos como primeira opção face ao sistema vigente. A própria emergência de industrialização que aniquilou qualquer principio de amizade entre povos e nações. Um completo egocentrismo económico que derruba qualquer valor moral de uma nação. Um Circo permanente marcado pela aquisição de petróleo, caracterizado como sustento da imoralidade de um país e de uma elite governadora mundial.

De certo, coexiste um permanente braço-de-ferro entre países, resultado da teimosia que os torna inimigos e opostos segundo enquadramentos dogmáticos distintos – de um paradoxo entre a busca totalitária de poder, imposição de valores e cinismo próprios do Ocidente, operacionalizado em investimentos tremendos em despesas militares e invasões a diferentes povos, e um Oriente baseado na resistência a essa dominação universal e visto de forma hostil.

No passado, olhávamos para a América como exemplo, mas agora denotamos, mais do que nunca, a bipolaridade governativa que lá é praticada. Um duradouro investimento em preservar através da superioridade militar aquilo que não é possível preservar pela superioridade económica nem pela autoridade moral ou intelectualizada. Com efeito, marcado pela transformação de consciência moral num instrumento de dominação. Mas será este método de preservação militar a chave para a criação de rumo colectivo e adequação de diferenças? Será este método de governação que indicará a compreensão entre nações? Considero que não.

Mas principalmente pela censura e pela forma como inimigos políticos e económicos manipulam o diálogo e a informação que está ao acesso de todos. Um discurso baseado em meias palavras, transparência parcial. Panorama mundial, apontado pelo autor, como causa de envenenamento do possível progresso e descoberta de rumo colectivo. Com certeza, o único aspecto que adicionam são as suas crispações destruidoras. Estas tornam mais forte a divisão entre sociedades, um completo desconhecimento de valores fundadores e uma anulação das minorias, que, à partida, representam o derrube da purificação ética de uma nação.

Um poderio económico do modelo ocidental que conduziu a um enfraquecimento do Ocidente. Um sucesso que não conseguiu expandir a sua cultura e democracia. Uma vitória sob o Comunismo, mas que não estendeu prosperidade além das fronteiras culturais do Ocidente. Aspecto que implicou um sistema económico baseado na parceria comercial, mas suportada pela temível rivalidade entre empresas e hostilidade permanente tendo em conta a aquisição de vantagem competitiva. Efectivamente, a superioridade que implicou o seu insucesso, uma vez que todas as nações mundiais adoptaram o seu sistema, privando-o daquilo que o fazia a sua especificidade e a sua superioridade.

Deste modo, o mundo encontra-se pousado no consumismo permanente, em paradoxo com a apatia duradoura face ao combate contra a pobreza, a ignorância, a incúria, a letargia social ou as epidemias que parecem não ter fim determinado. Um mundo apenas focado meramente no negócio, onde a Droga que o satisfaz é o lucro (o combate pelas zonas de produção; a rivalidade entre a teimosia daqueles que querem preservar a sua parte das riquezas naturais, e a teimosia de outros em obter a sua). Variáveis que apenas implicaram o desenvolvimento da tirania.

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Definitivamente, encontramos um povo sem rumo como resultado da evolução cientifico-tecnológica que ocorreu a uma velocidade superior à evolução de mentalidade e dos próprios comportamentos e conduta humanas. Sem dúvida, a nossa evolução material guiou-nos ao isolamento moral e intelectual. Mas também pela falta de legitimidade dos grandes lideres, componente necessária para a organização de um estado ou nação – liderança baseada na confiança e na capacidade de um líder saber escutar as vozes do seu povo, mas também daqueles que indirectamente serão influenciados por determinadas políticas ou económicas. Porém, uma liderança marcada pelo rodeio permanente de Delfins, que se fazem de pequenos e perseguem o líder, ansiando por uma ocasião de acção e de obtenção do poder – personagens que esperam de forma viciante o poder na sombra daqueles que governam. Trata-te de meros oportunistas.

Por outro lado, o mundo é marcado pela completa falta de Legitimidade Patriótica (a inexistência de um líder de sangue, mas de um combatente da nação), que marcou, certamente, o túmulo do estado Árabe (pelo exemplo da governação de Nasser) – um puro estado de instabilidade no Médio Oriente, suportado pelo traumatismo onde o desejo de paz é intenção, mas nunca concretizável. Um panorama político marcado pela derrota que lhe roubou a auto-estima e instalou-os, no longo prazo, numa relação de oriunda desconfiança com o mundo, captado como um lugar hostil dirigido pelos seus inimigos e onde eles deixariam de ter lugar. Um ódio duplo – do mundo e de si mesmo – que explica a larga medida os comportamentos destruidores e suicidas que caracterizaram e continuam a caracterizar o início do novo século. Uma tentativa fracassada de imposição de igualdade de oportunidades, modernização das suas sociedades, o enfraquecimento do tribalismo e a abolição dos privilégios feudais – perspectivas de secularização da sociedade que tinham sido demolidas.

Uma derrota no Médio Oriente, assegurado pelo fracasso e queda do Nasserismo, e a reviravolta de poder Islâmico. Da queda do campo soviético e um debate proveitoso para o crescimento dos movimentos islâmicos. Desse modo, o Oriente encontra-se num dualismo posicional face ao Ocidente: como apontado pelo autor, Quem quiser manter o seu poder deve tornar-se aceitável pela super-potência, mesmo que para o conseguir deva ir contra os sentimentos do seu povo. Aqueles que querem opor-se radicalmente à América pelas armas ou simplesmente pela violência retórica geralmente têm interesse em permanecer na sombra – um completo rancor face ao Ocidente, adicionado pela falta de legitimidade nas concepções políticas do Oriente. Universos políticos onde um governa sem povo e contra a sua vontade; o outro porque simplesmente o torna incapaz de governar, dado o contexto sistémico mundial.

Assim, a partir do momento em que o mundo se caracteriza pela ausência de legitimidade, tal facto desregula qualquer comportamento. A ausência de autoridade pode fazer anular a verdadeira credibilidade moral, uma vez que os homens acreditam que o mundo é uma anarquia onde reina a lei daquele com mais poder e onde todos os golpes cometidos são legitimados por esse cunho poderio. Uma condição que suporte a tirania de alguns povos ou nações. Naturalmente, a legitimidade é aquilo que permite aos povos aceitarem sem excesso e constrangimento a autoridade de instituições e portadora de valores partilhados.

Um mundo justificado pela jurisdição da administração Americana que abrange, hoje, todo o percurso político, económico e social do resto do planeta. Sem dúvida, a eleição da presidência Americana já não diz respeito unicamente à parcela de cidadãos norte americanos. O padrão alargou-se, justificado pelo sufrágio dos EUA que determinam o futuro de toda a humanidade. A eleição deste elemento pautará o vinculo futuro entre nações e mercados.

No entanto, a posição de única super-potência global implica que os Estados Unidos da América sejam beneficiários do desregramento mundial de gestão política, mas também suas vítimas. Assim, a inexistência de um contrapoder implica que os limites não sejam definidos. De excessos que não detém dose máxima, onde reina o interesse puramente económico. Contudo, a América parece querer governar através da apatia em relação a outras nações. Certamente, a negligência e o desprezo face a outras nações em torno de temas como o aquecimento global parece mostrar a autoridade que, maioritariamente, define a conduta e o interesse da América em rumar sozinha nesta aventura colectiva. Um comportamento que induziu reflexão moral – nos dias de hoje, reconhecem melhor os ricos inerentes ao exercício solitário do poder num mundo tão complexo, tão diversificado como o nosso.

Por essas razões o Soft Power parece ser a solução para um panorama mundial marcado pelo esgotamento de civilizações. O estado pode exercer autoridade de diversas formas sem ter a necessidade de recorrer em cada situação a forças armadas. A solução de Hard Power já se confirmou maliciosa e que não permite chegar a sucessos imediatos, credíveis e legitimados. Assim, é forçoso o abandono de uma lógica baseada no Hard Power. Considero que ajustes de contas, onde a metralhadora é mediadora da negociação entre fações rivais em plena reunião de comissão política, é dispensável.   Através de Soft Power permite criar um rumo colectivo, apresentando importantes alicerces em torno da existência de uma solidariedade planetária.

Deste modo, é importante olhar para os meios de comunicação de massas, reforçados pelo contexto de social media, como canais que possam permitir a mudança; uma maior consciencialização dos factos; de difusão de acontecimentos e o seu possível julgamento futuro; um local onde impere a união e de construção de riqueza moral, embora implique um abandono da polinização existente que é salvaguarda pelas mensagens que saem para o exterior e que são da voz da opinião pública, enquadrando ensinamentos anteriores com aquilo que correu mal em momentos ou espaços de ânsia de colectividade. Na verdade, a informação que está ao acesso de todos permite-nos fundamentar de forma mais assertiva a nossa opinião.

Definitivamente, enquanto cidadãs e cidadãos globais, é necessário adoptar uma escala de valores baseada na privação da cultura. Se queremos efectivamente redescobrir as nossas referências e um sentido para as nossas vidas, é imperativo abandonar a moralidade em torno do dinheiro. Deste modo, a cultura é conotada à disciplinização da sobrevivência. Passa pelo contacto com pessoas e culturas diferentes das nossas e não abafarmos as suas visões distanciadas. Torna-se um recurso importante para a criação de progresso e alinhamento global. O melhor no nosso dia a dia é não seguir rebanhos e refutar tudo o que nos é colocado à nossa frente. Submissão e conformismo são sinónimos de retrocesso e estagnação intelectual. Definitivamente, requer uma tendência de aproximação e não distanciamento entre sociedades, incentivada por uma cultura de imigração onde são chocadas as “rivalidades” entre nações. Assim, a imigração será entendida como intermediário e Bridge Builder entre diferentes nações. Assim, é indispensável criar um sentimento de pertença e de identificação. Um clima de confiança com o dito inimigo. Com efeito, que emancipe os homens do interesse e da ignorância e crie uma cultura baseada na ética e que instale no espírito humano uma visão totalmente diferente de politica, económica, identidade e cultura.

O caminho é para a frente e com visão para o futuro. Não é necessário viver na melancolia do passado e naquilo que nos tornou diferentes. O mal não está na casa do vizinho, mas sim no condomínio inteiro. O Ocidente precisa de abandonar o seu excesso de confiança; o Oriente do poço histórico onde ruiu.

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