Zygmunt Bauman, sociólogo Polaco com 91 anos de idade, destaca-se pela sua capacidade reflexiva e pela forma como se posiciona face às principais temáticas que assolam a sociedade e mobilizam a opinião pública para espaços de discussão e melhoria de politicas e organização social. De facto, pela sua obra Isto Não é Um Diário, parece aproximar-se daquilo que Steven Poole discute sobre a obra: “Se Bauman tivesse postado os comentários deste livro na internet, teria sido o melhor blog do mundo”.

Com certeza, a obra escrita e publicada em livro partilha em grande medida as características de publicações de um Blog. De certo, a obra não segue uma ordem de pensamento, uma narrativa separada e continuada pela utilização de capítulos. Uma história com início e fim. Porém, a obra divide-se por datas, como publicações pontuais sobre reflexões e inquietações sociológicas do autor perante aquilo que o contorna diariamente e atrai a sua atenção. Episódios separados por datas, entre setembro de 2010 e Março de 2011, sobre temas actuais cuja pertinência ainda é adequada perante o que ocorre diariamente em 2016.

Assim, poderei considerar que esta obra é um blog impresso e paginado. Um perfeito exemplo de como estruturar ideias e resumi-las de forma acessível e de leitura simples e atractiva. Características que devem traduzir a organização e estrutura de um post de um blog. Com certeza, acredito que o que não suscitou o autor em publicar estas suas ideias calendarizáveis numa plataforma online ou pagina de blog foi a vontade de perpetuar essas mesmas ideias. Efectivamente, o facto de o autor ter publicado as suas inquietações e crónicas em livro foi a vontade de as manter em estado físico, passíveis de ser consultadas em qualquer data, em qualquer biblioteca, em qualquer livraria ou momento. O facto de estas serem publicadas em plataforma online perde o seu carácter imortal, uma vez que se perdem na imensidão de conteúdos que são partilhados a toda a hora no âmbito da internet. Ideias que, apesar de terem pertinência em determinada pontualidade temporal, perdem-se no tempo e no decorrer dos anos após a sua publicação. De facto, perdem a razão de terem sido inicialmente idealizadas e criadas pelo autor, como forma de mobilizar opiniões grupais e formas de interpretar o mundo. Um grito de aviso, capaz de incutir em cada um de nós a consciencialização perante aquilo que nos contorna e aquilo que são as nossas reais vontades e aspirações.

Pelo facto de terem sido impressas em livro, mantêm a pertinência de ideias que devem continuar a ser analisadas e introduzidas na forma de fazer politica e na forma como se pode organizar a agenda de discussão entre a sociedade.

Reconheço, enquanto alguém que desconhecia a obra deste autor, a forma como o autor sente a forma de viver o mundo e como se posiciona perante ele. Um autor que, pela sua idade, parece fugir à usual conotação destes autores: seres pensantes que vivem na melancolia do passado e idealizam o futuro como espelho do que se passou em anos ou séculos anteriores; olham para o passado como a resposta para o futuro e anulam qualquer outro tipo de idealização. Contudo, o autor destaca-se pela forma como pensa de forma satisfatória sobre o mundo e sobre as implicações do próprio desenvolvimento tecnológico.

zygmunt-bauman

A forma como o autor se debruça face aos temas e como reflecte sobre eles é aquilo que torna a sua obra tão interessante. Pela pontualidade de pensamento e pela forma como a obra não segue uma história linear, mas um somatório de ocorrências, faz com que a obra seja ainda mais pertinente e adquira a atenção do leitor. Uma obra que podia ser vista como um diário reflexivo, torna-se uma obra brilhante de como refutar os acontecimentos que são da visão da opinião pública. Um pensamento do autor que se desenvolve e ganha vida pela escrita, como reconhecido pelo mesmo. Uma forma de criar opinião face aos temas e como se deve posicionar face a estes. Assim, pela multiplicidade de assuntos, diferentes entre si, faz com que o leitor mais heterogéneo agarre a obra e ache interesse ao conteúdo nela exposto. Fragmentos contextuais que agarram o leitor pelo interesse que este pode ter face ao tema. Uma obra que não obriga o leitor a seguir uma ordem padronizada de leitura, mas um saltitar entre os assuntos que são do seu agrado e que o podem mobilizar e incutir à mudança de opinião ou consideração de uma visão diferente à que este pode já ter.

A forma como o autor expõe a sua visão perante o mundo, cada vez mais desenvolvido e cada vez mais modernizado, suportado pelo desenvolvimento tecnológico e dependência face à utilização da internet, faz com que aquilo que o inquieta não ficasse aprisionado na sua cabeça. Uma forma de jogar com as palavras como aponta no inicio da obra, justificando a organização das suas reflexões. Um jogo que se junta à solidão que o consome, fazendo-o pensar sobre tudo a toda hora. Solidão que lhe dá tempo a mais para pensar, para tornar aquilo que pensa em conteúdo escrito. Um diálogo, como apontado por Zygmunt Bauman.

Pensamentos individuais que o fazem acreditar no sistema vigente de organização da sociedade. Fazem-no acreditar que o que ocorre na sociedade, marcado pela arrogância e falta de confiança entre indivíduos, é passível de ser contornado. Arrogância que se nota dentro e fora do espectro da internet. Arrogância que é empurrada pela própria mentira e pela forma como se naturaliza a prática daquilo que é dúbio e que não tem base factual.

Considero que outro aspecto que legitima a forma como a obra está estruturada e o porquê de não estar publicada em formato online é o facto de os temas serem analisados de forma madura, suportados com base em conteúdo noticioso proveniente de jornais como o New York Times ou o Le Monde. Em adição, o autor não opina face aos assuntos de visão individual. Pelo contrário, recorre a grandes autores das mais diversas áreas e interliga os pensamentos que podem surgir face à temática em discussão. Baseando-se nestas fontes externas, a maturidade e rigor reflexivo faz com que o autor se prenda em temas frágeis em torno da política, educação, globalização (ou glocalização como apontado por Bauman) e economia.

Por outro lado, a edificação desta obra, de forma particular e fugindo à usual estruturação de uma obra literária, explica-se pela forma como o autor faz um paralelismo com a idealização de obra elaborada pelo próprio escritor português, José Saramago. Segundo este, tudo aquilo que fazemos surge como peças soltas que se tornam numa autobiografia.

Assim, a obra centra-se em temas como a politica, onde os governos cruzam os braços sem encontrar alternativas; a forma como a estrutura das sociedades modernas encaram o desconhecido e o integram (ou não) no sistema social – de facto, o autor recorre ao exemplo da comunidade cigana e à comunidade imigrante proveniente de nações em guerra, nomeadamente refugiados, e a forma como os países de “acolhimento” (a utilização das aspas é irónica) tudo fazem para limitar a sua integração e limitam a sua actividade, recorrendo a normas e politicas de controlo de comunidades em minoria. Com certeza, temas como este fazem com que o autor reconheça que as reivindicações por parte destes governos de tudo servem para disfarçar e distrair o verdadeiro princípio do governo e das verdadeiras catástrofes e problemas que ocorrem e aos quais estes não conseguem dar resposta.

O autor centra uma parte da obra em torno de um país: os Estados Unidos da América. Efectivamente, o autor reconhece que esta é uma super-potência quebrada, onde o país começa a perceber que não obtém tudo a custo zero e que os seus princípios de dominação mundial parecem ser anulados. Uma nação que deixou de ver a luz ao fundo do túnel. Um país que salta de uma recessão para a outra e que o capitalismo já não é a resposta para a cada vez mais percepcionada utopia do sonho americano. Um sistema americano cada vez mais repudiado pelas media, onde a classe média vive em dificuldade e tem o direito de divulgar a sua raiva em praça pública, sem medo se serem acusados de egoísmo. Uma desigualdade cada vez mais clara e uma riqueza que apenas se destina a uma elite composta por um conjunto de personalidades. Uma critica e analise feita à sociedade americana pelo facto de agora terem abandonado a sua organização económica do seio da poupança e agora retomarem a sua natureza de consumistas desintencionais – como apontado pelo autor, os EUA são um país famoso por quebrar records em todos os campos, e o da estupidez financeira não é excepção.

Um autor que conhece claramente a importância dos novos desenvolvimentos tecnológicos e a forma como estes funcionam e ditam a própria conduta colectiva da sociedade. Um desenvolvimento que parece ter dado primazia ao descartável e ao que é importante tendo em conta o contexto. Desenvolvimento, este, que invalidou a sabedoria associada ao longo prazo, ao que era durável e àquilo que era passível de ser herdado e preservado na mente de cada um. A tecnologia equiparada a uma ferramenta que torna o individuo cego quanto ao seu futuro e que é orientado para a auto-produção – esta reverte a sequência humana de acções dotadas de um propósito.

Do ponto de vista da globalização, o autor venera a multi-culturalidade que agora consome a sociedade mundial, mas que também exigem preocupações por parte dos estados em manter o bem estar de todos e manter a soberania colectiva. Investimentos em torno da segurança. Porem num dos temas retratados pelo autor considero pertinente referenciar o facto de este categorizar a política com a religião, na medida em que as duas operam num mesmo espaço: o da incerteza. Estas gerem-se sob o peso de uma incerteza humana que transcende a sua capacidade singular ou colectiva de compreensão e acção terapêutica.

Por outro lado, um dos temas que me marcou mais ao ler a obra foi o destino que se parece dar aos mais jovens.. ou não. De facto, estudantes que, na visão do autor, parecem estar (e estão) profundamente revoltados, uma vez serem a geração zero: zero oportunidades, zero futuro. Uma população de indivíduos que movem uma revolta unida, contrastando com a dispersão individual que retrata o resto da sociedade. Estudantes e, acima de tudo, jovens que se inserem num mundo ou terra que não se rege pelas suas oportunidades. Assim, para conseguir sobreviver e vingar na vida, há que ser agressivo.

Como apontado pelo vídeo (Link: vídeo completo), poderemos fazer o paralelismo com o que o autor diz na obra sobre a forma como devemos manter os relacionamentos entre a esfera social. Com o desenvolvimento de canais como o Facebook, a construção de uma comunidade parece cair para segundo plano. Temas em torno da virtualização dos relacionamentos, passiveis de ser quebrados em função do contexto, mas construídos a uma velocidade nunca antes vista. Um relacionamento que procura dar resposta à solidão que se vive actualmente. A internet e a realidade virtual vistas pelo autor como formas de ceder a este principio de solidão e criação de relacionamentos e ligações a uma escala global. O número de relacionamentos aumentou exponencialmente, embora a construção dos mesmos, suportada pela tecnologia, não se executou da melhor forma. Deste modo, temos ligação com muitas pessoas mas não estabelecemos mesmo uma relação com elas. O Facebook apenas veio, segundo o autor, criar uma comunidade virtual, mantendo os contactos de forma diária. Porem uma amizade que pode ser rompida a qualquer altura.

Facebook, este, que agregado a outras plataformas online tornem o anonimato da internet não relacionado com a liberdade de expressão, mas sim com o da própria irresponsabilidade. Certamente, quanto mais perigosa uma arma for, mais restrições à utilização esta deveria ter. No entanto, a internet pode adquirir uma componente completamente perigosa e não verifica qualquer tipo de restrições.

Aproveitando a temática em torno da parcela juvenil da sociedade e o desenvolvimento do Facebook na vida de cada um, o autor aponta a atitude consumista de forma desalmada que marca a actividade destes indivíduos. Assim, as redes sociais como o Facebook são importantes ferramentas para a propaganda consumista virada para os mais jovens. Permite, assim, a própria rotatividade do ciclo do próprio capital.

Um mundo, como encarado pelo autor, pela inundação do capitalismo e num sistema económico baseado no colapso do crédito. Louva-se o consumo, mas não se louva a integridade e a salvaguarda do bem comum. Um sistema sem respostas e sem esperanças. Estas últimas direccionadas para a camada jovem e estudantil. A aquisição de um grau académico que deixa de ser possível categorizar uma vida estável e duradoura.

De certo, com a leitura da obra consegui perceber que cabe á política ser erguida com base nas cinzas da fúria popular. Uma escrita pragmática, com recurso a analogias para categorizar a organização da sociedade e a personificação de condutas e comportamentos específicos. Figuras de estilo que compõem um estilo de escrita muito próximo àquele que encaramos nos melhores blogs e crónicas online.

Com certeza, o eufemismo e a ironia que juntos erguem o pensamento e induzem a reflexão por parte do leitor. Seja este em torno da globalização, que afinal invalidou a metáfora consagrada pelo tempo e para o desenvolvimento da politica; a preocupação da tecnologia na forma como se encara a politica e se criam culpados; sobre a forma como a multidão continua a viver no medo permanente, mas que procura salvaguarda de interesses na política – político este que vive só e que terá de representar um povo cada vez mais alargado graças à globalização; o distanciamento geográfico que deixou de contar; a noção de distanciamento e proximidade como altamente alterados e cada vez mais misturados; o poder local que agora incentiva o seu valor de influencia ao nível do poder internacional; a política como míssil invisível de criação de paz e coordenação; a expulsão dos jovens na forma de se fazer política, embora que o autor veja que é pelos jovens que se cria um encontro desejado, glorioso, mas que o seu momento de realização é longo, árduo e espinhoso; ao povo e ao sistema que procura soluções em livros de auto-ajuda; uma internet que acima de tudo, pelo seu carácter neutro, é aquilo que salvaguardará a igualdade de oportunidades – A internet é o presságio da visibilidade para os invisíveis, da audibilidade para os mudos, da ação para os incapazes de agir. Uma arma capaz de criar impacto em apenas uns segundos quando antes eram necessários anos de esforço diplomático. De abolição da intimidade e da reserva e da transposição da esfera privada para a esfera pública. A internet como presságio do processo de socialização: uma forma de ganhar reconhecimento e atrair atenção e aprovação de terceiros – angustia de aquisição de afiliação perante o próximo; membros de uma sociedade de consumidores são eles próprios mercadorias de consumo, e é a condição de mercadoria de consumo que os torna membros legítimos dessa sociedade.

Visões sobre o mundo suportadas pelo distanciamento do autor ao longo da sua vida: distanciamento do mundo da infância, exílio no período da Segunda Guerra Mundial, separação das suas esperanças e vivência como estrangeiro num país diferente. Uma visão que baseia o desejo do autor em que todas as pessoas consigam atingir um estado de auto-realização e de justiça social.

Em suma, reflexões em formato de blocos que tornam a obra brilhante em todos os sentidos. Seja pela escrita, seja pelos temas que são colocados em cima da mesa. Um autor que, embora idoso, mostra uma visão periférica daquilo que é importante e sobre o que é que necessita de ser alterado. Uma visão aberta e incompleta, onde cabe ao leitor retomar o pensamento e agir em prol daquilo que reconhece como caminho correto para o bem comum e para a construção de uma sociedade mais justa. De certo, considero que a obra não teria o mesmo impacto se fosse publicada na internet. Embora fosse o melhor blog do mundo, o seu conteúdo não seria perpetuado por muito tempo. Apenas mais uma pagina de internet, perdida entre a panóplia de já existentes.

 

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